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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

As Meninas de Papel



Bastava uma folha de jornal para nascer uma enfiada de meninas de papel. Todas iguais, de braços abertos e de mãos dadas. Passei tardes a brincar com elas. A fazê-las rodar, a ajudá-las a dançar em pontas como as bailarinas. As minhas meninas de papel pertenciam a um mundo feliz.

Aprendi este entretém com uma senhora, de quem gosto como uma avó.  Hoje, tem 89 anos.  Visitei-a no fim de semana. Não fizemos manualidades em papel. Fizemos conversa de mãos dadas, como as meninas de papel. Demos um abraço longo e cheio de lágrimas, de que só nós sabemos o porquê. As nossas mãos, uma na outra, recordaram aquele bailado artístico que transformava papel em meninas, chapéus, pássaros, lagartas e concertinas.
 Hoje, chamam-lhe Origami. Para nós, é um mover de mãos, gestos precisos e redondos, risos e mais risos, a cada peça que nos entretinha.
Há uma felicidade secreta nas nossas lágrimas, que motivou a curiosidade das outras pessoas, naquela sala, daquele lar de idosos.
Estar feliz e triste ao mesmo tempo confunde os demais!
 E mesmo que tenha passado muito tempo, para a mulher e para a menina que faziam meninas de papel. Mesmo que estas meninas, injustamente, nunca tenham sido mais do que isso. Mesmo que haja lugares onde nenhuma de nós pode voltar. Quando eu e a Joaquina nos abraçámos houve uma magia, que ninguém pode identificar. Apenas as meninas de papel. As que dançavam a música, que as concertinas tocavam, enquanto os chapéus voavam e as lagartas fugiam.
 Partículas autónomas de inteligência a que em qualquer época, em qualquer tempo, chamamos de Amor.

N.B.






* Este texto é dedicado à minha grande amiga Joaquina Gavancha, que me ensinou a cultivar a imaginação, através de folhas de jornal e a imaginar histórias, que recontávamos sempre de forma diferente. Graças a ela percebi que a  criatividade tem um significado cósmico inesgotável.

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