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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um homem invulgar



Conhecemo-nos durante as praxes, na Faculdade de Letras de Lisboa. Era uma miúda com 18 anos e ele teria quase o dobro da minha idade. Destacava-se entre os caloiros, não por ser mais velho, mas por uma particularidade, que a todos surpreendeu. Era cego, invisual, como prontamente corrigiu um veterano.
Ao longo do curso ficámos amigos. O Sérgio era uma pessoa excepcional. Cegou já adulto, depois de ter concluído um curso de engenharia. Conhecia as cores do mundo, sabia o que significava ver e perder a visão. Era um homem de armas, decidido a voltar a estudar. Escolhe a Faculdade de Letras, porque ali havia um departamento de apoio a invisuais.
A primeira vez que precisei de comprar livros, foi ele que me guiou até ao Campo Pequeno, onde ficava a livraria. Ao meu lado, mais parecia um GPS, contava as estações de Metro, indicava-me referências, as cores dos edifícios, que a rua tinha árvores, o nome de um café e lá chegámos.
O Sérgio era isto. Era inteligente, dono de um sentido de humor requintado.
Fazíamos apostas para testar se nos confundia quando nos aproximávamos e apenas lhe tocávamos com as mãos. Ganhava sempre. Eu, a RitaVizinho, a Teresa Cortez, A Elisabete Bento ou a Soalheiro, a Paula Coelho adorávamos fazer-lhe esta partida. Ele sorridente, dizia que conhecia o perfume de cada uma.
A primeira Stand up Comedy a que assisti foi improvisada por ele e outros amigos, na Residência Universitária Pedro Nunes. Memorável!
Hoje, que se celebra o Dia da Visão, quis prestar esta homenagem póstuma ao Sérgio. Uma pessoa invulgar, que sabia dizer e ouvir. Às vezes, enquanto aturava as minhas crises existenciais sobre a escolha do curso, respondia-me com ar sereno:
-" Gosto dos teus problemas miúda, são uma espécie de desimportâncias, com alguns pormenores que deves analisar." Riamos disso.
Sou terrivelmente privilegiada por o ter conhecido.

N.B.



                             * imagem Pinterest

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