Número total de visualizações de página

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Para que lado dormes?



Sofrem do mesmo mal, são os dois ansiosos. Esperam demasiado de si, dos outros, da vida. Vivem em alta rotação, gostam de imaginar coisas que não existem, que desejam fazer acontecer. Esta aparente acção inesgotável faz deles workaholics, solicitadores frenéticos do sempre mais. 
Mas há um código de conduta estabelecido com algum rigor, não conseguem livrar-se disso, do rigor.
Em casa vestem a preguiça doméstica, assumem o pavor de falhar. Sofrem do que é normal, fome,  sede e " a falta que eu te faço", no dizer de um ou no olhar do outro.
Merecem-se em tudo, na vida de pouca partilha e na cama onde se encontram. Aliás, a cama é uma espécie de lugar de impacto, onde se reflecte o tamanho dos dias. Há um ritual ao deitar, que poucos imaginariam. Lêem-se histórias em voz alta, numa espécie de degustação criteriosa, de outras vidas, de coisas que se esquecem de viver. Devoram-se livros com as mãos, com os olhos, com a boca, com o corpo todo. Misturam-se planos nesta cama: os planos da narrativa e os planos entusiásticos do que lhes é permitido imaginar, do que lhes é possível fazer com o que fica destas histórias. 
Incansavelmente, neste ritual de ilusão e ordem faz-se a acalmia dos ansiosos. Uma forma legitimada por ambos, de amor, de sexo, de cumplicidade, em que um corpo se apaga no outro corpo. Fica escuro e o sono divide-se em dois.

N.B. 













*Imagem Pinterest

Sem comentários:

Enviar um comentário

Mania de escrever

Mania de escrever
Aqui pratica-se a mania de escrever