Número total de visualizações de página

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ali, mora o desacerto com a vida!



Entraram juntos no cemitério. Ele para cumprir uma promessa, para visitar os dele. Ela para o acompanhar.
No início, há contenção nas palavras e sobram emoções, enquanto se ajeitam rosas brancas numa jarra de mármore.
Cada um dos que ali descansa é, agora, um lugar concreto. A data de nascimento e morte, o nome, são elementos comuns a todas as campas. Quem saiba ler a topografia deste lugar, pensa ela, depressa descobre outros elementos diferenciadores.

Há, neste hangar de repouso, diferentes épocas denunciadas pela arquitectura fúnebre. Há desgostos eternos, saudades incomensuráveis e uma conformação à lei da vida. É nisto que pensa, enquanto o  companheiro se movimenta entre as campas, como quem vai ao encontro das gentes da sua terra.

Começa uma visita que ela não vai esquecer.
Ele animado a cada descoberta, explica-lhe quem foi cada um dos que ali jaz. Para isso, imita tiques, gaguez, maneiras de andar, posturas peculiares, relembra uma boina, um cigarro atrás da orelha, tons de voz, fino, abrutalhado, pausado, as alcunhas, também. E ela cede no riso, nas gargalhadas e nas lágrimas, lembrando-se de muitos.
Quem os visse, não entenderia as memórias felizes que os enchem por completo, como se visitassem um outro lugar.

Há um silêncio periférico, que propaga as palavras, que redimensiona a presença dos dois, ali.
 E a visita continua, num tom de diálogo, em que por vezes ela reconhece não ser o receptor.
 Ele fala-lhe de um homem bom, enquanto dá palmadinhas na lápide, como se faz nas costas de um amigo. Ela reconhece-o, ao homem bom! Reconhece, ainda, que há conversas que só se têm com gente da mesma terra.

O cemitério já não é um lugar triste, afinal não se guarda ali a dor inteira, a outra parte fica com os que cá ficam.
Enquanto saem, instala-se um silêncio de prefácio. Ambos sentem que conversarão sobre isto, muitas vezes.

A morte é um desacerto com a vida!
Mas ainda é verão. Só os pardais e a brisa do vento preenchem o silêncio que os envolve.

N.B



* imagem encontrada na net

3 comentários:

  1. É uma delícia ler o teu blog.
    Muitos parabens.
    Muitas saudades.
    Milhões de beijocas. Dulce

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. És tu Dulce?!
      Tínhamos que nos encontrar nalgum lugar!! Aqui, é um lugar feliz:) Bjs

      Eliminar
    2. Sim, sou eu.
      Perdi os teus contactos.
      Liga-me, para falarmos. Tenho imensas coisas para te contar.Bjocas Dulce

      Eliminar

Mania de escrever

Mania de escrever
Aqui pratica-se a mania de escrever