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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Hungry like the wolf




Não, por acaso não sofri nenhuma insónia que me levasse a fazer zapping e dar de olhos num programa da National Geographique, sobre alcateias, lobos e fenómenos inexplicáveis da vida animal. Nada disso!
Tudo isto, tem uma explicação perfeitamente normal, o que não significa todavia, agradável. Bem sei, que no mês de Agosto os temas são as festas, as férias, os amores de verão, tudo nice, cool, great, the best, whatever. Desculpem-me pois, por vir ao aqui tratar de coisas mundanas, desagradáveis, que provocam dor de cabeça, pesadelos e nalguns casos nem com Prozac, se conseguem banir da memória.
 Pronto, é isso, estou a falar de lobos disfarçados de cordeiro, dos falsos e meigos, dos que passam por cima sem pestanejar, dos que nos ensinam a desconfiar como se tivéssemos que ser sentinelas permanentes, do nosso próprio respirar.
Precisamente em Agosto, quando as férias dão o merecido descanso a muitos, outros tantos decidem de forma traiçoeira a não renovação de contratos de trabalho, sem qualquer anunciação prévia.
 Fazem-se escolhas inacreditáveis, prescindem-se de profissionais de valor, dão-se medalhas de mérito aos graciosos, aos que seguem o rebanho sem tugir nem mugir, zeladores do agrado fácil, na compra sem direito a troco. Não é meu costume escrever sobre estas coisas "dos rebanhos", sou alentejana e confesso que acho lindo um grande rebanho alinhado a descer a pastagem. Há uma sinergia e uma simbiose quase comovedora entre o pastor, que o lidera, o conduz e o cão que mantém unido o rebanho, defendendo-o do ataque dos lobos. É bucólico, é a natureza humana e animal, numa prazenteira harmonia.
Aquilo, de que falei mais acima é puramente a selvajaria a que a condição humana nos conduz em momentos de desnorte, como este que vivemos.
Infelizmente, sei o que é voltar de férias em Setembro e tomar conhecimento, que o nosso posto de trabalho foi extinto. Vá lá, criou-se outra coisa, com outro nome para alguém mais social, digo social e não sociável. Segue-se o costume, Tribunal de Trabalho e é vê-los chegar vestidinhos como na foto. O que almoçava comigo e desabafava as agruras da família, a que passava a vida a dizer que isto e aquilo...enfim, vê-los desfilar justificando a extinção dos postos de trabalho, que poderiam ser os seus.
Soube notícias de algumas destas personagens, que comigo formaram uma equipa de trabalho, num passado distante. Não lhes invejo o presente, lobos e cordeiros não pertencem à mesma família, uns são presas, outros predadores e a natureza é fiel aos seus princípios.
Hoje, uma pessoa que mal conheço desabafou comigo a dor destas deslealdades, que nos lançam para o pior de nós mesmos, tornando-nos amargos e descrentes. Existem poucas coisas mais consoladoras para o ser humano do que a simples constatação de que os outros já sentiram o mesmo que eles.
Foi isso que lhe disse e que sobrevivi. Há tanto chão, como céu ou mar pela frente. Mil coisas boas aconteceram, talvez por causa dessa história do lobo e do cordeiro.

E depois, já diz o ditado "é mais fácil conservar o carácter do que recuperá-lo".

N.B.

1 comentário:

  1. Hoje, muitos de nós se confrontam com a realidade que descreves e com a descoberta que, afinal, muitas das pessoas com quem partilhámos, durante anos, o trabalho se revelam desconhecidos.
    Será por certo díficil recuperar o carácter, mas pelo que tenho visto e ao contrário do que afirmas, parece muito fácil perdê-lo. Tenho medo que um dia, as circunstâncias confluam para mostrar que a pessoa que penso ser não existe. É que à minha volta tanta gente deixou de ser

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