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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Desarma-me com a tua coragem





"Tem de haver uma grande solidão dentro dos que encontram as respostas sem a necessidade de perguntar." 
A frase é de Luís Osório e deixou-me a pensar.

Talvez seja o preço a pagar. Estou em crer, que até a natureza humana tem em si, um mecanismo de tributação. Uma espécie de imposto. Talvez seja só a minha interpretação adulterada, por uma certa falta de fé.

Há dias assim. Há procura do norte ou do sul, tanto faz. Há procura do futuro para entender o presente.

Há dias em que todos precisamos de uma deixa para voltar a acreditar, para recomeçar, para nos orientarmos perante os desastres que acontecem.
Pegar no leme, na bússola, pôr um pouco de céu na viagem, porque as dificuldades são apanágio dos vivos. E se faltarem as forças, que os outros sejam o músculo, que se possa descontar nas rezas feitas e por fazer.

Desarma-me com a tua coragem. É a frase que me ocorre frente ao televisor, perante tão grande catástrofe. É a frase que me mobiliza quando escrevo estas linhas. É a mesma que venho dizendo a mim própria.




N.B.



sexta-feira, 16 de junho de 2017

Gosto de vésperas



Gosto de vésperas. Gosto do que antecede momentos felizes. Gosto da adrenalina, da ansiedade positiva, do sonhar antes de acontecer.
As vésperas cheiram a dias de sol, à casa arejada e limpa, à cama vestida de lavado, ao bolo acabado de cozer. E vestem-se com o frou-frou de coisas que se tagarelam dias a fio, depois de acontecer.
Ninguém finque certezas de véspera. O inesperado é o convidado indesejado destes dias, enquanto o coração empenhado trava contas com o relógio.
São uma espécie de prólogo de uma história por escrever. O argumento ganha corpo no dia seguinte.
Às vezes, o que nos vale são as vésperas e não o dia. Valem-nos as pessoas e as anedotas que lhes ficam associadas em permanência, àquele dia e àquele lugar. Não é estranho dizer-se que há vésperas, que suplantam o próprio dia.
 Uma coisa é certa, raramente a véspera atrasa o dia. Isso agrada-me e descansa-me. Tudo o mais será transformado e digerido no coração e nos olhos de quem lá esteve.

N.B.



* Imagem Pinterest


terça-feira, 6 de junho de 2017

É mesmo o que parece.



Sim, é um ovo partido. Não, não vou reflectir sobre as qualidades nutricionais do ovo, nem sobre as teorias que defendem que é saudável comer até três ovos por dia, nem tão pouco me interrogo ou vos interrogo sobre a célebre dúvida, "Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?".
Nada disso, um ovo é sempre um ovo quer esteja inteiro, partido ou cozinhado. A vida humana é sempre a vida humana, quer o princípio da realidade nos leve a diferenciar raças, credos, ideologias políticas ou questões de estilo e de linguagem. O Professor José Manuel Pureza disse um dia numa entrevista que, "O mal tem no sofrimento de cada homem, mulher, idoso, criança, a ausência de resposta para o que lhe acontece.".
Não deveríamos fazer outra coisa senão recordar as razões de viver. O desprezo pela vida humana, pela própria vida enche os telejornais de todo o mundo. Porque está mal, o que está mal?
 Parece-me, que a resposta de tão complexa, cheia de incoerências nos leva à célebre questão, "Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?" .
Querem-se termos certos para pensar em tudo isto. A analogia entre o ovo, nos seus possíveis estados e a vida humana, poderá não ter sido a melhor, para passar a mensagem. Há coisas que não sei escrever.
Que fique, pelo menos bem vincada, a diplomacia da amizade, para a construção de um mundo melhor.


N.B.



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Uma espécie de depósito de valores



A disposição das pessoas na nossa memória não se explica facilmente. Há medida que o tempo passa ajeitamos os mortos lá para dentro, na memória. Por isso, nem sempre vêm ao pensamento. Se caem da estante onde estão arquivados, ou se algo de exterior os impulsiona para fora do arquivo, projectam-se como slides. É vê-los ampliados nesta espécie de projector interior.

Os meninos do berlinde, os cachopos do peão, os mais crescidos escondidos a fumar Kentucky, Português Suave, o que houvesse. O carteiro de bicicleta, a boina, o cigarro enrolado atrás da orelha. Chico, o sr. Chico Mota, trás notícias, boas e más. Um homem alto, careca, por isso lhe chamam João Grande, encostado à ombreira da porta, de uma taverna que já não existe.O cheiro dos petiscos, do vinho barato bebido ao copo ao balcão. E do outro lado da rua,  um carrinho de mão conduzido pelo Raúl,  a quem Deus fez diferente. Cumpre a tarefa de empurrar o carro de mão, como se a deficiência perdesse expressão, neste constante empurrar. Mais à frente, em passo apressado segue uma mulher franzina, dizem-na embriagada, bêbada, é essa a palavra que usam. O filho, segue atrás, coxeando num bambolear de quem lhe falta algo, é um dos braços e a respectiva mão que não lhe obedecem. Vão discutindo até casa, um lugar chamado Canto Roubado. Nome estranho este, para onde caminham vezes sem conta, Mari Zé Maminhas e o filho.
 Às treze menos dez, um mercedes amarelo estaciona frente à mercearia. O homem mais rico do concelho compra um pão escuro, integral. É assim, todos os dias da semana, na rotina do Sr. Artur Sequeira.
 Não há morte que os leve. Afinal um dos mistérios da vida é saber quando desapareceremos deste mundo. Certamente, quando não houver quem nos recorde.  A memória é uma espécie de depósito de valores. Às vezes, é preciso abrir gavetas, arrumar estantes. É o que faço.

N.B.




terça-feira, 23 de maio de 2017

Cais azul




As coisas como elas são.
 Ninguém tem o azul dos olhos da minha mãe. Os meus ensaiam esse tom, mesmo sabendo que até nisso cada uma tem o seu.  E quando me olho ao espelho, não é na cor dos olhos que a revejo, é em mim.
A falta que me faz o azul. Preencho-o com uma admiração sem tamanho e nisto nascem-me textos, coisas para dizer. E a melhor das vidas será sempre esta.


N.B.







segunda-feira, 8 de maio de 2017

Caminhos de fé



Maio faz-se de fé, de peregrinos, de passos dados para um só destino.
 Maio enche-se de carreiros de homens e mulheres sinalizados com coletes reflectores, bordões que  amparam, que dão cadencia cada vez que tocam o chão. Caminhos de fé e de aceitação.
Alimentam-se de cumplicidade. Na partilha amparam a dor física e a outra, tão maior.
Vão por dentro, pelos trilhos da alma. Enchem-se de vontades, de fé, de uma força que os envolve, que lhes incha os pés e lhes saí da boca a cada Avé Maria.
Talvez não se dêem conta dos milhares de peregrinos que os acompanham. Gentes daqui e de outros lugares, que na fé não se distinguem nacionalidades. Gentes que sem sair das suas casas, sem abandonar os seus trabalhos, as obrigações diárias, caminham lado a lado n´ O Amor à Virgem, na devoção a Fátima.
Sou um desses peregrinos, que ficou em casa.

N.B.



sábado, 29 de abril de 2017

Vista de Pájaro




Imagino o amanhecer em Puerto Roque. Imagino-o assim.
Puerto Roque é uma das linhas de fronteira que divide Portugal e Espanha. Habituei-me a ver "estes Pirineus" sem nunca sentir que nos dividissem, a portugueses e espanhóis. Em terras raianas sabemos, que muitas vezes é dentro de portas que se criam os estigmas. Não têm carácter geográfico.

Por aqui, homens e mulheres juntam-se no amor e no matrimónio. Por aqui, fazem-se negócios, compras, vai-se "a tapear ou a picar" nos bares de Valência de Alcântara, atesta-se o depósito de combustível porque é mais barato, há mercado à segunda-feira e não se perde la Feria de Santa Maria de Agosto, nem as Corridas de Toros. É a sinceridade do quotidiano que desconhece fronteiras, nacionalidades, idiomas. Serve-se apenas do que existe. Por isso, as Maias florescem  tão amarelas do lado português, como do lado espanhol. Um especialista em olhares diria que aqui, portugueses e espanhóis vestem a monotonia do interior, de maneira diferente.

E à  noite dentro das casas, num e no outro lado da fronteira, quando as luzes se apagam são apenas homens e mulheres que descansam. Os mesmos que acordam e tratam das vidas, como se desconhecessem as assimetrias que os separam das grandes cidades do litoral. E nenhum se sente um habitante vulgar numa fronteira que se ergue de pedra. 

Puerto Roque, Galegos, Valência de Alcântara, Marvão, Santo António das Areias, Portagem, são lugares onde portugueses e espanhóis não são estrangeiros. Por aqui, o asfalto foi durante muito tempo uma estrada para caminhar.

N.B.












Autor: Juan Carlos Jimenez Durán

Título: Atardecer de Puerto Roque (Vista de Pájaro).


Mania de escrever

Mania de escrever
Aqui pratica-se a mania de escrever