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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Há uma mercearia na minha vida



Há uma mercearia na minha vida. Prateleiras cheias de cor, de fazer e desfazer porque escrever é tão bonito. Encontro tudo o que só existe ali. Entram e saem fregueses, vizinhos, conterrâneos, amigos, os meninos da escola na hora do lanche. Há horas em que a loja se enche de gente, coincide com a chegada do pão quente, dos bolos da padaria. Todos têm pressa. A menina Glória conhece as demandas e sabe como criar entendimento. A mesma habilidade com que trava os que se interessam mais pela vida dos outros do que pela própria. Porque ali conversa-se sem fazer vincos.
Há uma mercearia na minha vida, tão fácil de percorrer. Deus distraiu-se e nada disto já existe, excepto na memória dos outros.
 Queria o bom, o mau e o péssimo deste lugar. Porque é preciso deixar de ter, para ser avassaladora a recordação. É uma verdade que temos que assumir.
Não quero desabituar-se de a frequentar na  memória, nas poucas fotos que disponho e no coração onde há uma cópia de segurança.
Olho e há tanta coisa que me não dei conta. A menina cresceu.

NB





terça-feira, 10 de julho de 2018

Da série "Curtas"



Não tenho certezas sobre o que nos salva ou o que nos cura das mazelas dos dias, mas asseguro-vos que a imaginação e a criatividade põem-nos de pé. Não falo com o coração. Falo com a razão, aquela que se cala quando escrevo.

NB





segunda-feira, 9 de julho de 2018

A ferro e vapor


Passa a ferro junto à janela. Engoma as roupas da casa e as do corpo, os diferentes tamanhos e formas que vestem cada um. Estica, alinha, alisa, vira frente e avesso, entrega-as ao calor do ferro, ao vapor como um peeling que as põe como novas. Movimentos rápidos, mecanizados e o pensamento veloz que não descura o perigo próximo à pele.  Simultaneamente, viaja para longe onde se perde a espessura dos hábitos e das rotinas. Cada peça de roupa faz a diferença na rampa de lançamento do que não se vê, consoante se trate de um lençol, de uma camisa ou de umas calças.
Nada disto resulta do acto de engomar, em si. Nem tão pouco do vapor libertado pelo ferro, que possa descolar ideias agarradas à retina. Acontece-lhe. Pequenas histórias envoltas no vapor, sem nunca se queimar.
 Junto à janela, subitamente, tudo fica perto. A América, Itália, Amesterdão, Dublin, Bilbau ou o Alentejo, até mesmo aquela rua e aquela casa no bairro de Alvalade.
Tem um emprego que poucos conhecem, que poucos entendem. Um emprego de palavras. Ainda não facturou nada. Isso não a impede de engomar como quem escreve,  junto à janela.


NB






quinta-feira, 7 de junho de 2018

O vestido de noiva


Agora que toda a gente opinou sobre o vestido de noiva da mais recente boda, no país de Sua Majestade, retomo o tema para falar do meu, do meu vestido de noiva, pasme-se!
Tenho três imagens muito presentes na minha memória.
A primeira quando o vesti e decidi que era aquele. A segunda contempla o vestido fora de mim, uma imagem quase surreal. Era noite, início da madrugada que antecedia o casamento. O vestido engomado, em casa de uma amiga, descia a Avenida 25 de Abril num manequim de madeira, a cauda amparada por duas mãos e o manequim sustido por outras. Um vulto branco, estranho, intrigante, assustador. O terceiro momento mantém o toque cinéfilo.
A festa havia terminado. O casamento decorreu no Alentejo, num dos dias mais quentes desse ano. O lugar escolhido foi uma herdade, uma espécie de clube de caça. Para evitar cansaços maiores reservámos quarto, nós e vários amigos. Não havia ar condicionado. Gentilmente os responsáveis pelo alojamento deixaram aberta a janela do nosso quarto e para que os amigos não se lembrassem de fazer partidas, trancaram a porta que o ligava, às restantes alas. O quarto encheu-se de melgas, muitas. Faço alergia às picadas. A terceira imagem pertence a essa madrugada, quando depois de insistentemente tentar exterminar toda aquela bicharada, depois de tentar sair pela  porta que dava acesso às outras alas, saltei, saltámos a janela do quarto. Vestida de noiva, já que as malas tinham sido entregues sem chave.
 Perdidos de riso, numa estrada de terra batida, um luar que amanhecia damos de caras com o espanto do pastor que nos olhava tal qual aparição. O vestido iluminado pelo luar parecia outro. Talvez o mais belo dos "três". Sou fraca em elogios e não fica bem dizer que era o mais bonito de todos os vestidos de noiva. Acrescento só um pormenor, tinha sonhos bordados. Alguns, ainda não os conhecia.


NB


** imagem pinterest


quarta-feira, 6 de junho de 2018

" Não matutarás de forma prolongada"



Andar em ziguezague também é andar. E ao pé coxinho ou sentado a matutar. Matutar é um verbo do caraças, leva-nos longe, muito longe. Felizmente por pouco tempo, a realidade atravessa-se no caminho. Uma espécie de norma indispensável à sobrevivência quotidiana - "Não matutarás de forma prolongada".
Aconteceu neste instante, levava ele minutos largos de matutar ou seriam kilometros percorridos a pé, em modo automático? A música em altos berros vinda de um carro todo quitado, trouxe-o para baixo, onde o silêncio tem som e retroactivos.
Num plano médio como nos filmes, vêem-se dois cães eriçados a medir forças, por entre os donos impreparados. Depois, numa espécie de Close-Up, como se a câmara focasse de perto a passadeira de peões, o homem faz-se à passadeira apressado com o ladrar danado dos cães, nos ouvidos. É quando dá de caras com outra cena, coisa rara, coisa linda. Meio corpo fora da janela do carro, do lado do pendura. Meio corpo esticado, pernas e rabo numa geometria de volume, que não se aprende nos manuais escolares. Pede aos Santos que assim fique, não vá de repente o resto destoar.
E foi assim, escassos metros e esfumou-se o matutar.
Ele há coisas que é para levar a sério. Não nos podemos demorar muito nem em cima, a matutar a cabeça, nem em baixo a adorar o próprio umbigo. Sempre desconfiei de quem vive neste vaivém.
Este que matutava sabia disso, tal como sabia que para viver há que encontrar outros, há que sair dos pátios da imaginação, pisar a realidade.


NB






quinta-feira, 24 de maio de 2018

Uma dor inédita


No dia em que a mãe morreu, a roupa ficou por lavar.  No chão da cozinha, frente à máquina, dois pequenos montes de roupa, uma branca e outra de cor, esquecidos.
No dia em que a mãe morreu não comi nem bebi, fiquei como uma espécie de vegetal separado da raiz.
Vieram os vizinhos, a família, os amigos, os conhecidos e sei que sim, mas na memória havia pouco espaço para além do corpo dela, preparado para que se pudesse ver, para que se pudesse despedir. Uma virgem de manto bordado, abrigava-lhe a cabeça no topo da urna. Reconhecia de um calendário, que a mãe guardava, por considerar a imagem tão bela. Como fora ali parar a virgem do calendário? As perguntas sucediam-se na minha cabeça e só eu as ouvia. Não dormi, mas deitei-me para ficar a sós, era a única maneira de estar sozinha, com ela, comigo, as duas.
Depois, quando a vida nos obrigou a abrir a porta onde ela já não morava, desesperei-me. Fui ao frigorífico e comi todos os restos de comida que ela cozinhara. Não com a avidez da fome, da gula ou algo que se pareça. Tão somente, com a ilusão de registar no paladar a última sopa feita pela mãe e tudo o mais que lá havia. Foi contrário o efeito. Um sal de lágrimas quase me fez vomitar e depois procurei a virgem do calendário, para lhe dizer que não gosto de coincidências e não se mora ao mesmo tempo em dois lugares. Guardei-a, por respeito à mãe, no fundo da gaveta dos lençóis, uma espécie de benfeitoria contrária ao meu sentir.
Sentei-me na cama da mãe, tão cheia de espaço. Fiz contas ao meu rosário, fiz promessas que não cumpri, aceitei coisas que à partida negaria.
No dia em que me enchi de luto, muitos outras famílias experimentaram o mesmo.
No dia em que a mãe morreu, parti e regressei outra mulher e o mundo continua sem saber quem eu sou, quem ela era. Isso só interessa a mim.

NB

in," Coisas no Fundo do Alçapão", caderno que se  preenche de inéditos, da escrevente deste blog.


** Gustav Klimt



segunda-feira, 21 de maio de 2018

Marvão



Marvão, trago-a ao blog, num passeio de palavras como se passássemos o dia lá. A vila é uma aldeia que se percorre da entrada ao final do casario branco. Tudo entre muros ou melhor dizendo, dentro de muralhadas. Calçada pura e dura de muitos séculos de estar. Marvão é farta em ar puro, aconselhável a visitar a pé, com os pulmões às costas.
Não sei se é a muralha que sustenta Marvão, se é Marvão que altaneia a muralha. Aprendi a admirá-la como uma estrutura geológica, que enquanto leiga, se me afigura fazer parte da cordilheira pirenaica, como um rabo de lagartixa, que cortado ficou para trás, a experimentar forças.
Aqui todas as portas e janelas abrem para o lado da inspiração. Está tudo à vista e do alto dos seus quase 900 metros de altitude, a finitude é como uma coisa éterea.. À noite parece ouvir-se o silêncio no mundo, sob um manto de estrelas.
Há uma servidão apaixonada no céu de Marvão. Por isso, quando nasce o sol, entre o azul do tecto e as cores imensas da paisagem, é impossível não agradecer o tesouro deste lugar.
O tempo aqui tem outro ritmo. É um tempo deitado que se entretém com as nuvens que ganham diferentes formas ou a magia da luz sobre os telhados. E, não me perdoaria se me esquecesse dos Milhafres, pássaros que sobrevoam a encosta e oferecem ao viajante a oportunidade de os ver pelas costas, tal a altitude do lugar.
Cresci por aqui perto. Guardo-lhe o traço inconfundível, mas não monótono, da muralha. Em todo o caso nada do que digo se esgota. Há que ir, que conhecer, que visitar. Marvão, a vila de Marvão.

NB



**Fotografia João Carvalho



**Uma das muitas portas viradas para a inspiração.



Mania de escrever

Mania de escrever
Aqui pratica-se a mania de escrever