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quarta-feira, 15 de março de 2017

Morre-se muitas vezes!


Morre-se muitas vezes!
Foi ao pequeno-almoço que esta ideia se fez texto. Falo do que sei, do que aprendi em quase dois anos de ausência da minha mãe. Foi numa segunda-feira, logo a seguir ao domingo de Páscoa. Um dia marcado para sempre no calendário. A voz do meu irmão do outro lado do telefone, como nunca a ouvi. Um acidente de viação, o som monossilábico que se propagou como um gongo a rebate. Um NÃO sem vida.
Não sei descrever a falta que me faz, (que nos faz). Nestes meses, adoptei um exercício. Faço caminhadas pela minha memória. Aventuro-me, na perspectiva de não perder a nossa história, de não esquecer.
E nesta relação que se estabelece, entre o passado e o presente, a vida e a morte apercebo-me de uma evidência. Morre-se muitas vezes!
A minha mãe morreu no dia 6 de Abril de 2015. Morreu-me, depois disso outras vezes. À mesa da consoada no lugar que deixou vazio, nas delícias que só ela cozinhava, na alegria de uma família que não é a mesma. Morreu-me no silêncio do telefone que já não toca, nas conversas longas que já não tenho. Morreu-me recentemente nas mãos, num papel de carta. A anatomia estropiada dada a conhecer num relatório de autópsia, que preferia desconhecer. Procedimentos de uma legalidade burocrática, apenas. O corpo entregue assim, detalhado numa folha de papel.
Isto não são palavras tristes. São factos, evidências do que afirmo. Morre-se muitas vezes! Porque morrer é algo que se replica nos outros, nos que amam, nos que não esquecem.
Quando fez 69 anos escrevi-lhe um texto. Foi o último aniversário. Começava dizendo, " E seguiram viagem de mão dada, cada uma pelo seu caminho". Terminava com um pedido, "Não me percas da mão".
Agora sei, é assim que esta história termina. Para mim que escrevo histórias, que faço caminhadas  pela memória, que descobri que se morre tantas vezes, tenho a certeza que continuamos, cada uma pelo seu caminho. E morrendo-me tantas vezes, sei que não me perde da mão. Por isso, que vou indo.
Cada qual ocupando o seu lugar, consciente da sucessão de faltas que é a vida.
Hoje o café ficou frio sobre a mesa. Tinha que escrever isto!

N.B.


segunda-feira, 13 de março de 2017

A bebericar tónicos de coragem



 Somos tão físicos. Sem esforço, somos lugares, objectos, pedaços de outora, eco.
 Quando o tempo não tem pressa, descobrimos outra sinceridade.  Nessas horas de miradouro, vejo-me uma bicicleta, com laivos de um certo estilo vintage.
Nítida, como as pequenas linhas que desenham o nó dos meus dedos, enquanto escrevo. Vejo-a cheia de particularidades ou defeitos,  depende de quem olha. A correia da bicicleta, por exemplo, mostra um certo vício de ajustamento. Não é defeito. É assim!
Um olhar atento descobre-lhe a velocidade a que gosta de circular. Uma velocidade justa, adequada ao caminho, ao piso. Reduções cúmplices das pequenas falhas dos carretos.
O que importa é não circular demasiado na nostalgia, sobretudo do que não chegou a acontecer.
O que importa é a cadência e uma velocidade que permita olhar o mundo, sempre na perspectiva de lhe vislumbrar melhoras. Com a garantia que se ultrapassa o que nos faz mal.
No volante uma campainha. Timbre alegre a envaidecer as mãos que o seguram. As que professam a correcção da postura, o alinhamento ergonómico numa viagem sem destino.
Agrada-me imaginar tudo isto, o equilíbrio vestido de leveza. E o vento que não se vê, mas sente-se. A vida que fervilha em volta. O corpo emocional, que é o que somos. Que será sempre, mesmo se a bicicleta ficar incompleta, sem roda da frente ou pedal. As coisas como elas são, o físico e o emocional!
E pelo caminho, bebericar tónicos de coragem.

N.B.



sábado, 11 de março de 2017

Porque escrevo o que escrevo?


Porque escrevo o que escrevo?
Esta pergunta já me foi feita de várias maneiras. São tantas as respostas, depende do dia, do lugar, de mim  no momento.
O que escrevo faz parte de uma geografia que comecei a explorar há uns anos. Um caminho imenso, sem horizonte definido. Etapas de montanha, descidas vertiginosas, planícies ora verdes, ora áridas, trilhos e caminhos vadios. Porque há muito Alentejo na minha biografia! E há uma ideia que se materializa quando escrevo, a ideia de liberdade. Nunca quis ser outra coisa a não ser livre.
Uma utopia que cada um sonha com as armas que a vida lhe dá. Uma ideia naif, absurda, até. Talvez comparável àquela dor que se instala, que martiriza um ombro, uma perna, o estômago, uma qualquer parte do corpo. Quando afinal são só frases por dizer,  reivindicações por fazer, coisas por resolver,  alguém que nos aborrece, um projecto sem viabilidade, a coragem estrangulada, o medo de não ser capaz.
Ser livre não é algo que se ganhe num concurso, ou numa  raspadinha. Não é fazer o que apetece, fazer só o que se quer.
Ser livre é uma tarefa solidária que se assume para a vida e implica o outro. Escrever tem muito disto tudo!

Escrever é ouvir a imaginação, numa espécie de confissão em que a voz se dissipa quando as frases tomam conta do papel. Escrever é viver outras vidas e isso está reservado apenas aos loucos, aos artistas, aos sentimentais, que como eu fazem de tudo um motivo para escrever uma história.

Porque escrevo o que escrevo?
Porque não sei desenhar, nem cantar, nem fazer música e gosto de pormenores.

N.B.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sem margem para dúvidas!


A incoerência faz parte de nós. É, existe!
Está para o palato como a sabor agridoce. Está para o tacto como o beliscão que produz aquela dor. Está para a visão como a poeira, que faz fechar os olhos. Está para a audição como uma nota desafinada.Está para o olfacto como a comichãozinha que antecede a rinite. E aquele beijo sem face, sem boca é quase isso, também.
O que importa saber é que a incoerência existe, chamar-lhe outro nome é um erro. A isso, chama-se falsidade.

N.B.





                                                    ** imagem pinterest

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um limpa metais com élan!



Faz-se humor com coisas sérias. O humor consegue temperar o que não sabe a nada. E é assim, que se operam verdadeiros milagres. Desfaz-se a pedra da vesícula, limpa-se o saco lacrimal, neutralizam-se moléstias várias, o sangue circula com outra velocidade, ruborizam-se rostos, despertam-se simpatias e até paixões. Tanto, apenas com humor.
É nisto, que se parece com um limpa metais. Acentua as nódoas, enquanto dá brilho à peça. Qualquer acontecimento banal ou excessivo ganha outro élan, um refresh, um outro estilo.
O  riso conduz à engenharia da desconstrução. As muitas perspectivas moldam as maquetes.
O humor não liberta, mas é importante! Além disso, é um lugar onde cabe tudo ao mesmo tempo, onde cabemos todos.
Uma pessoa com humor é uma surpresa, um susto, uma alegria, uma paixão.  É inteligência, só que não cabe onde normalmente a querem meter. E isso é tão bom, que provoca riso. Provoca danos!

N.B.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Sobre o perdão e o castigo. Sem contra-indicações a apontar.


Aprendemos cedo duas palavras : castigo e perdão. Aprendemos a teme-las, a respeitá-las, mas nem sempre a usá-las no lugar certo, na exigência da situação. Aprendemos o significado.  Apontam-nos exemplos daqui, dali, nas histórias infantis, nos livros, no cinema, na televisão, na catequese, na missa. Até a comer um prato de sopa, de que não gostamos pode servir de lição.
 E assim, os conceitos ilustram-se de narrativas, de rostos, de situações. Às tantas, banalizam-se e por isso nos surpreendemos sempre, quando a vida nos confronta com eles.
Acredito que nada disto faz sentido, que não serve pedagogicamente quando são os outros a pensá-lo, a dizê-lo, ou a exigi-lo. O verdadeiro castigo e o verdadeiro perdão só existe dentro de nós, onde raramente o procuramos e onde raramente o encontramos. É mais fácil culpar os outros pelas nossas falhas, pelas nossas cobardias, pelas intrigas e tagarelices mentais que tecemos para nos proteger do perdão que não comemos, porque é amargo. 

Afinal o Inferno somos nós, como diz Aurélio Gomes, no Canal Q. E o futuro faz-se todos os dias. Devíamos lembrar-nos disso, quando o presente não corresponde às expectativas.
 O castigo também somos nós. E o perdão, esse não é para todos! Está lá dentro onde já não mora ninguém, na maior parte das vezes.

N.B




** imagem Pinterest

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A menina dos pés frios


Tenho os pés frios. Tão frios que interferem com o pensar. Por isso, lembro-me de mim, da minha infância e pergunto-me o que ficou desse lugar. Que traços, que gostos, que complexos, que manias? É hoje outro o sorriso? E o jeito de olhar?
Consigo ver-me tantos anos para trás. Sou uma invenção minha, talvez!
 Isolar assim, pequenos fotogramas da memória é como isolar a substância que provoca o riso, ou numa prova de total excentricidade, a própria felicidade!

Tenho os pés frios e vejo-me lá. Frente a uma porta avermelhada, um colo onde me sento, o do meu pai. Sou a menina do lugar. Um pequeno papagaio que canta e fala sem parar. Comecei a falar e a andar muito cedo. Todos me achavam graça. E à porta daquela taberna, os amigos acudiam ao fim da tarde para um petisco,  um copo, uma foto como esta.
Com os olhos do lado de fora, percebo que já não estão todos. A maioria vive agora na memória da família, de amigos. Guardo de uns a voz, de outros o assobio e uma brincadeira que me faziam vezes sem conta e na qual acreditava sempre. Ilusoriamente achava ser possível uma daquelas mãos arrancar-me, sem qualquer dor, o nariz. E procurava-o depois com espanto, num jogo infantil que arrancava gargalhadas.
Esta porta, este quadro de homens valida tantos sentimentos, apenas num olhar.
Validar sentimentos é um processo que deveríamos cumprir com regularidade. Validar sentimentos é ganhar segurança. Assumo que me faz falta, que perdi alguma!

Por uma hora que fosse, gostava de lá voltar. E até me lembro, que o meu pai me aquecia os pés com as mãos e cheirava a tabaco.

N.B.




Mania de escrever

Mania de escrever
Aqui pratica-se a mania de escrever