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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Um dia olhei para mim



Um dia olhei para mim e vi que a escrita me realizava. É assim, portas que se abrem por dentro, porque a gente nem sempre vive onde mora, porque os pensamentos também são a nossa casa. O real e o não real, o verdadeiro e o falso, como este cão de pelucia. Isso pouco importa, o que realmente importa é a luz que inventa todo este universo das palavras. Uma espécie de estrela, que acredito não se apaga.

N.B.



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Papel pardo na sobrecama


Ouço dizer que já não há Outono. Talvez esteja atrasado, porque ficou a descansar na sobrecama, da casa da minha avó.

  No sótão, como vulgarmente se designa. Lá, o Outono tem uma cama de papel pardo, feita pela avó Felicidade. Lado a lado, perfilavam-se maças bravo-de-esmolfe, marmelos, dióspiros e romãs. Basta subir dez degraus de madeira, fixar a cabeça contra a porta da sobrecama, fazer força com o pescoço e o auxílio dos braços e upa, a porta entreaberta deixa vislumbrar a cama de papel pardo e o perfume maravilhoso dos frutos em repouso. Parece a bandeira de um país imaginário.

Das vigas de madeira do telhado pendem cachos de uva vermelha, de uma qualidade cujo nome não recordo. Num cesto de vime há nozes e figos secos, mas as uvas vermelhas são especiais. Vão à mesa no Natal e as que secam, comem-se na passagem de ano, uma por cada badalada.
Se o Outono descansa na sobrecama, o Inverno habita o andar térreo, um lugar frio ou fresco consoante a temperatura lá fora. Ali, não há cheiros doces e macios. Ali, armazena-se o azeite para o ano inteiro e na salgadeira o toucinho, o presunto, enchidos diversos, lombo, painho,  paio, chouriço, morcela, farinheira. Os curados do fumeiro vêm descansar em alguidares grandes de barro ou ficam pendurados na vara presa do tecto por ganchos, tão fortes como os braços do avô.  O cheiro dos queijos, que a avó vira e limpa com azeite, sente-se no quartinho sem janela, contíguo ao armazém das matanças, onde as crianças não gostam de entrar.
 Entre o Outono da sobrecama e o Inverno do piso térreo, as outras estações tomam conta do resto. E o melhor está no quintal, nas árvores para escalar, os jogos de malha, os banhos de mangueira, os baldes de laranjinhas secas que rolam pela rampa do portão.

Nesta casa ninguém é colonizado pela televisão. Este é um lugar mítico da infância, o princípio do mundo para todas as crianças que por aqui passaram. Um lugar onde continuo a ir, basta-me fechar os olhos.



N.B.


sábado, 23 de setembro de 2017

Os medos

Tenho medo do desencanto. Da ausência de cor na vida.
Tenho medo que o desencanto me roube o entusiasmo, que me corre nas veias. Que a pele enruge antes do tempo. Que pare de me crescer nos olhos, esta vontade de escrever.
Tenho medo de não ser a personagem principal dos meus sonhos e que outros os sonhem. Tenho medo de não decidir atempadamente.
Mas o que mais temo, é perder o medo de ver o que não é. Porque adoro pormenores e é neles, que se escondem entradas para o nada.
Na minha cabeça discute-se futuros. E o meu desassossego é-me imprescindível, mesmo quando me faz sentir medo. Mesmo se não ousar voar.

N.B.


* imagem Pinterest


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O que fazemos com tanto engano?

O que fazemos com tanto engano anunciado de forma mediática? Crimes e alegados crimes, casos jurídicos e casos judiciais? O que fazemos, além da moralidade que a todos acolhe num julgamento na praça pública? Que consequências advêm, no imediato e no futuro, às diferentes gerações que assistem a tudo isto?
Receio que na maioria dos casos, haja urgência em apagar o passado, o ontem, o ainda agora, de que é feito tanto engodo. Que se queira servir um presente em que a fraude, o enriquecimento ilícito, os crimes fiscais ou uma alegada acusação de plágio sejam tidas como situações normais.
Mas as nações e os Homens serão sempre entendidos, analisados, descritos e registados para memória futura pelo que deixam, mais do que pelo que quiseram deixar. Não faltarão instrumentos de rememoração para o atestar.
E o que fazemos com tanto engano?- insisto.
S. Tomás de Aquino, na sua sabedoria, recomendava paciência e capacidade de não desesperar. É um bom principio, mas não chega. Sobretudo, quando já impera a passividade, a escassez de coragem, o pouco envolvimento cívico e uma elevada abstenção no acto eleitoral.
As assimetrias e os contrastes acentuam-se ao som da saudação, "vamos indo".  Abrimos a porta às desgraças do mundo a cada telejornal. É assim, que jantamos com as excrescências de Trump e as ameaças de Kim Jong- Un.
O caso Sócrates, o caso BES, as implicações à Portugal Telecom, nomes que nos habituámos a ver como referencia, Zenal Bava, Henrique Granadeiro ou os dinossauros da vida autárquica nacional, são tantos os enganos que nos foram feitos. E recentemente, num outro plano, mas não menos surpreendente a alegada acusação de plágio feita a um dos cantores populares, mais acarinhado do país.
Obviamente que tenho que repetir a pergunta. O que fazer a tanto engano?
Não podemos permitir exercícios especulativos. Não podemos mandar suspender a força destas coisas. E  é certo, em qualquer dos casos não há proveito mútuo e estamos sempre do lado dos lesados. É pois justo afirmar, que o engano deve ser sempre cobrado ao que dele se valeu. Mas será suficiente?
Há um agnosticismo militante que cresce, enquanto marinamos numa constante situação de espera. Aparentemente, não há resposta para a questão:
- O que fazer a tanto engano?
Talvez um dia escreva um outro texto, em que a pergunta seja:
- Agora que estamos todos contentes, o que fazemos?

N.B.



terça-feira, 12 de setembro de 2017

Convictos

Quando abrimos a porta aos "Ses", haverá sempre outro e mais outro. Não sou pessimista, mas há perguntas que é melhor não fazer. Tal como há coisas que não se pedem, outras que não se pagam e já agora algumas que não se dizem.

É preciso compreender o que nos acontece e acreditar que podemos mudar tudo. Talvez dificilmente mudar os outros. Homérico será mudar o mundo. No entanto, acreditar.
Porque compreender é uma aproximação à paz. É conhecer o corpo e a mente que habita as roupas que escolhemos, as mesmas que nos fazem sentir confortáveis, bonitos, atraentes ao olhar dos outros.

Tudo melhora quando compreendemos e aceitamos. Tudo se transforma quando acreditamos.

Há ignorantes convictos. Há ignorantes por opção e mesmo por nascimento.

Sou outra coisa qualquer.

N.B.


**  Pintura de Salvador Dalí

sábado, 26 de agosto de 2017

Como se mede a claridade?


Como se mede a claridade? Melhor dizendo como se quantifica a intensidade da luz solar ou da falta dela?
Hoje o dia clareou diferente, menos luminoso, um espectro solar que transtornou o azul do céu logo ao amanhecer. E no passar das horas, não mais recuperou.
Lá fora e cá dentro a luz é outra. Estarão menos 3/4 de sol? Será qualquer coisa como menos meia volta de luz, que ficou armazenada para outro Verão? Um sunset curto como uma bica de mau café, que ainda assim satisfaz o prazer.
Valha-nos à noite o depósito de luz das estrelas e os candeeiros que não se apagam nas ruas, nas avenidas ou nas rotundas.
Não querendo, sinto que o Verão começa a despedir-se. Queria agarrá-lo, fazer-lhe um elogio, mas este ano não me ocorre. Trago as chamas dos incêndios na íris, o cheiro do fumo no corpo e no cabelo.
Passei o Verão a vigiá-lo. No limite da justiça, não misturarei o que arde com o que ilumina.
Repito e acreditem, hoje a claridade é outra.

N.B.



* fotogradia de Vittorio Ciccarelli

terça-feira, 25 de julho de 2017

Um trabalho a tempo inteiro



Viver e gostar de viver é um trabalho a tempo inteiro. Exposto a todo o tipo de erros, até os que se guardam a sete chaves.
 A realidade reduz as expectativas. Ainda assim, há surpresas, imprevistos, pontas soltas que permitem novos enlaces e uma linha de montagem onde o essencial se mistura com o acessório. O difícil mesmo é não se perder.
Depois convém contar com outro elemento relevante, o tempo atmosférico. É uma espécie de interlocutor para todas as certezas estúpidas e para todos os sorrisos com e sem motivo.
 É importante aprender a  mastigar os condicionalismos, como um fruto desconhecido que pode revelar-se surpreendentemente agradável.
 Há uma ladainha que a todos acompanha : "Se estiveres bem disposto, se não idolatrares a sorte, se não a desprezares, se estiveres disponível para conhecer novas coisas, se fores tu com feitos e defeitos, com sonhos e projectos, com a ânsia de subir e descer as ruas e calçadas do futuro, sem medo, com paixão. Se..." 
Coisa para um trabalho a tempo inteiro.
 Afirmo sem ligeireza que os sonhos não têm altos e baixos. Somos nós que os temos, quando nos entupimos de desalento, como quem é alérgico ao pólen trazido pelo vento.
Quanto a isso,  é esperar que o vento mude.

N.B.


* imagem Pinterest



Mania de escrever

Mania de escrever
Aqui pratica-se a mania de escrever