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sábado, 16 de dezembro de 2017

Uma casa sem telhado


Olho para dentro do corpo, para esta casa em permanente construção. Uma casa sem telhado, desde o sismo de há dois anos e meio. Desde o dia em que a mãe saiu para fazer compras no mercado espanhol, do outro lado da fronteira e não regressou, nem ela, nem as compras, nem nada do que éramos.
A escrita já me vestia o corpo, da cabeça aos pés, conforme os dias. Agora tem outra força, impulsiona-me, inquieta-me, torna mais lúcida a consciência de habitar uma casa, assim.
Quando a mãe estava, o mapa da infância estava garantido. A mãe era a fiel depositária das minhas memórias difusas, das que obviamente não tenho. Hoje deparo-me com limites no mapa, ervas altas a cobrir recantos.
Sirvo-me do meu lado solar, do Alentejo que levo dentro onde há galos da madrugada, homens de boné, mulheres à soleira da porta a fazer renda, cães na rua que são de todos, como o adro da igreja é para os fiéis e para os feirantes, na festa do padroeiro. Sirvo-me da materialidade das palavras. Evito a monotonia dos conceitos e observo muito, como quem se habituou a ver o céu, numa casa sem telhado.
A escrita dá-me esta alegria que em nada depende da felicidade. E enche-me, por dentro, de dúvidas e de fé. Não a religiosa, mas a fé na vida, nos outros, no que há-de vir. Olho as paredes pintadas da arte do espanto, a mesma que me interroga, tantas vezes, sobre o binómio morte/vida. Olho os retratos de mim nas paredes. Mostram um crescente de maturidade, a que a mãe chamava de "fazer-se mulher". Olho para dentro do corpo sem me demorar muito. Há um silêncio colado à casa e a vida reparte-se lá fora, por tantos lugares.
Os livros e a escrita levam-me a conhecer outros, fora do círculo de giz que tendemos a  desenhar à nossa volta e nos confina à família e amigos.
Foi assim, que conheci o Luís Osório e surgiu o convite para escrever para a sua página. Afiguraram-se-me duas escolhas, ou me voltava para fora, ou me voltava para dentro. Voltei-me para dentro e foi de lá que vos escrevi.

N.B.

** Este texto foi escrito a convite do escritor Luís Osório, para a sua página de facebook, onde foi publicado no dia 11 de Dezembro, 2017.



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Obrigada Zé Pedro


Suspeito eu, que numa outra encantadora identidade fui uma música, duas, melhor dizendo. Suspeito eu, que não fui  a única. A imortalidade a existir, também se faz de músicas e de músicos de qualidade sacramental. As palavras podem enganar, a música não.
O que me tranquiliza hoje, quando os Xutos&Pontapés perdem um dos seus, o rosto da banda, o Zé Pedro, é que muitos responderiam como eu, à pergunta pueril, a um daqueles questionários de resposta imediata, "E se fosses uma música?". A resposta pronta e sem reservas, "À minha maneira", a segunda faixa do álbum 88, dos Xutos&pontapés.
O que me tranquiliza hoje, é compreender que há maneiras de não partir, não deixar de existir, de continuar depois de tudo.
Entristece-me o desaparecimento do guitarrista, do homem, da figura ímpar, que era o Zé Pedro. E sinto um orgulho tremendo por fazer parte de um tempo, em que o rock se fazia assim.
A música nunca lhe recusou nada. A música não recusa nada. É por isso, que a ouço," À minha Maneira".
Obrigada.


N.B.


**( A outra música da minha outra encantadora identidade é a que dá ritmo à minha vida, a que faz compasso ao meu coração, "Where the streets have no name", dos U2).



quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Elogios aos pedaços



Ficam sempre coisas por dizer, mesmo entre pessoas feitas de palavras, de conversas cheias, com regras de elegância e códigos só nossos, que a maledicência não nos provocava demora. Eram tantos os pretextos, as perguntas repetidas, a meteorologia lá e aqui, "Está muito frio. Aqui nem por isso.".
E continuávamos até aos beijos no ar, Até Amanhã.
Ficam sempre coisas por dizer, elogios aos pedaços que nada mais são que o eco de uma pessoa que amei por inteiro. Isto, certamente não lhe disse, em nenhuma das muitas conversas. Eram as palavras a falhar entre silêncios compostos, que usávamos na perfeição. Era linda a mãe. Tinha azul nos olhos. Elogios aos pedaços.

N.B.


** Os meus pais.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Viver


Observo.
Em todas as sinaléticas encontro a palavra Viver. Não há como enganar, é assim que se faz o caminho. Na maior parte do tempo, a circulação é feita em modo automático, a cumprir rotinas, gestos copiados, coisas de todos, das razões dos dias. Abrandamos de quando em vez, quando caímos, quando entristecemos, choramos, repensamos, percebemos que não há volta atrás. Retomamos o fôlego para seguir em frente. Abrandamos, também, quando somos alegria e felicidade.  Momentos que acrescentam, que fazem história.  Então, quase paramos para viver o momento e por isso nos surpreendemos  porque o tempo passou
rápido.
É assim que vamos. É assim que se chega ao princípio e ao fim das coisas. Todas as direcções, todos os cruzamentos, todos os lugares têm a mesma sinaléctica, Viver. Tudo o mais são histórias, que não cabem aqui. São desistências, enganos, verbos opcionais.
Viver é um dádiva e nem sempre o caminho é uma escolha. Momentos há em que é apenas caminho, apenas isso. E não adianta querer saber tudo, faz parte do maior segredo, Viver.

N.B.


**Este texto resultou de um convite feito aos leitores da página do facebook, Escreve-me Devagar, sugerindo-lhes que escolhessem uma palavra, que servisse de mote ao texto. O convite contemplava novos seguidores da página, sendo depois alargado a todos os que acompanham o blog. A palavra Viver foi a sugestão da Rosa Maria Coelho. 






sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O tempo certo


Deu-nos Deus um Verão continuado. Um sol que teima em lamber o horizonte, até ao último segundo. Um cheiro a seca, a terra desnutrida, tórrida, estéril. Um Verão continuado, mesmo depois do acerto da hora.
Quer-se um céu com nuvens, não das estéreis mas das outras, grávidas de chuva. Quer-se água a correr nas valetas, a engrossar riachos e rios, a encher charcas e barragens. Quer-se uso para o impermeável, para o guarda-chuva, a parka tão bonitinha, as galochas de tigresa, tanta moda em stand-by.
Terá sido Dédalo a amaldiçoar-nos com este Verão que não acaba? Consultei as Parcas, a Sibila e até o Borda D´ Água. As primeiras apontam o Homem como responsável do seu próprio destino. A segunda refere a Natureza, força geradora do caos e da mudança. Quanto ao Borda D´Água insiste na necessidade de tirar partido das luas e do tempo correcto para deitar as sementes à terra. Insiste, no respeito pelo tempo certo.
O Verão continuado não faz parte do tempo certo. Talvez, porque este é o tempo de nos pormos à prova, de nos enfrentarmos, de proteger o ambiente. Uma demanda aventurosa como a das Parcas, da Sibila ou  a de Dédalo. Um destino em aberto. Um caminho pejado de afirmações ignorantes e castradoras, de advertências, de estudos e certezas. A fortuna da Terra nas nossas mãos.

N.B.


**Ponte Vasco da Gama, Lisboa. Foto pinterest.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Gosto do Natal em Dezembro


Gosto do Natal em Dezembro, dos enfeites, das luzes, da árvore de Natal, do presépio. Gosto da doce contagem decrescente no Calendário do Advento.
Gosto do Natal em Dezembro, do São Martinho em Novembro, do Ano Novo no primeiro dia do ano.
Não gosto nada, de ver isto tudo tão contrário, que quase ofende. Ainda não era Novembro e nas montras, nos Centros Comerciais já se vendia o Natal adiantado.
Um mundo artificial, materialista, comercial, consumista, que alguns dirão fantástico, genial.
O Natal é em Dezembro, está no calendário, vem na wikipedia. É simples, sempre foi assim. Pelo menos, por aqui, porque na rua em frente, não tarda já passou o Natal e muito em breve é o reveillon. E aposto, que os manequins são vestir-se de Beyonce.

N.B.




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

"Somos os que viemos."



Subo as escadas  apressada, em direcção às galerias do primeiro andar da igreja. Entro na primeira varanda à direita e fico de lado para o altar. Lá em baixo, os bancos cheios, maioritariamente de crianças, de escuteiros que frequentam a catequese. Descanso as mãos no varandim de madeira, enquanto o sacerdote se dirige à comunidade dizendo: " Somos os que viemos."
 
A frase ecoou em mim. Somos os que viemos e quantas vezes somos isso mesmo, os que viemos, os que estamos. Infelizmente, não nos basta e por isso perdemos a alegria do momento, enquanto nos entristecemos pelos que não estão, pelos que não quiseram estar, pelos que não voltam mais.
Perdemos a satisfação  renovada em segundos de futuro. Uma coisa tão simples. Viver o momento sabendo que os outros que não estão, são apenas palavras de ausência e não a ausência.
Não há famílias perfeitas, nem amizades imaculadas, tudo tem a dimensão do Homem.
Somos os que viemos,  ecoava na minha cabeça e num flashback visualizei a importância e as consequências desta frase e do seu significado, na minha própria vida. Como se automaticamente, o botão de uma espécie de ouvido espiritual, que guarda memórias por entre o frenesim das palavras, tivesse entrado em "mode on".
" Somos os que viemos", é a frase inaugural para todos os que leiam estas linhas. Tem sempre o sentido de uma adição, nunca de uma subtracção. Sem tristezas, nem moralismos. Um texto, que é um bocadinho da parte de dentro, que poucas vezes estamos disponíveis a mostrar.

N.B.




** imagem Pinterest

Mania de escrever

Mania de escrever
Aqui pratica-se a mania de escrever