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terça-feira, 23 de maio de 2017

Cais azul




As coisas como elas são.
 Ninguém tem o azul dos olhos da minha mãe. Os meus ensaiam esse tom, mesmo sabendo que até nisso cada uma tem o seu.  E quando me olho ao espelho, não é na cor dos olhos que a revejo, é em mim.
A falta que me faz o azul. Preencho-o com uma admiração sem tamanho e nisto nascem-me textos, coisas para dizer. E a melhor das vidas será sempre esta.


N.B.







segunda-feira, 8 de maio de 2017

Caminhos de fé



Maio faz-se de fé, de peregrinos, de passos dados para um só destino.
 Maio enche-se de carreiros de homens e mulheres sinalizados com coletes reflectores, bordões que  amparam, que dão cadencia cada vez que tocam o chão. Caminhos de fé e de aceitação.
Alimentam-se de cumplicidade. Na partilha amparam a dor física e a outra, tão maior.
Vão por dentro, pelos trilhos da alma. Enchem-se de vontades, de fé, de uma força que os envolve, que lhes incha os pés e lhes saí da boca a cada Avé Maria.
Talvez não se dêem conta dos milhares de peregrinos que os acompanham. Gentes daqui e de outros lugares, que na fé não se distinguem nacionalidades. Gentes que sem sair das suas casas, sem abandonar os seus trabalhos, as obrigações diárias, caminham lado a lado n´ O Amor à Virgem, na devoção a Fátima.
Sou um desses peregrinos, que ficou em casa.

N.B.



sábado, 29 de abril de 2017

Vista de Pájaro




Imagino o amanhecer em Puerto Roque. Imagino-o assim.
Puerto Roque é uma das linhas de fronteira que divide Portugal e Espanha. Habituei-me a ver "estes Pirineus" sem nunca sentir que nos dividissem, a portugueses e espanhóis. Em terras raianas sabemos, que muitas vezes é dentro de portas que se criam os estigmas. Não têm carácter geográfico.

Por aqui, homens e mulheres juntam-se no amor e no matrimónio. Por aqui, fazem-se negócios, compras, vai-se "a tapear ou a picar" nos bares de Valência de Alcântara, atesta-se o depósito de combustível porque é mais barato, há mercado à segunda-feira e não se perde la Feria de Santa Maria de Agosto, nem as Corridas de Toros. É a sinceridade do quotidiano que desconhece fronteiras, nacionalidades, idiomas. Serve-se apenas do que existe. Por isso, as Maias florescem  tão amarelas do lado português, como do lado espanhol. Um especialista em olhares diria que aqui, portugueses e espanhóis vestem a monotonia do interior, de maneira diferente.

E à  noite dentro das casas, num e no outro lado da fronteira, quando as luzes se apagam são apenas homens e mulheres que descansam. Os mesmos que acordam e tratam das vidas, como se desconhecessem as assimetrias que os separam das grandes cidades do litoral. E nenhum se sente um habitante vulgar numa fronteira que se ergue de pedra. 

Puerto Roque, Galegos, Valência de Alcântara, Marvão, Santo António das Areias, Portagem, são lugares onde portugueses e espanhóis não são estrangeiros. Por aqui, o asfalto foi durante muito tempo uma estrada para caminhar.

N.B.












Autor: Juan Carlos Jimenez Durán

Título: Atardecer de Puerto Roque (Vista de Pájaro).


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Quanto é que custa um filho?


Quanto é que custa um filho? Vá lá, sem demagogias, sem olhar só à parte financeira, quanto custa?!
Bem sei, que a ala conservadora interpreta mal este tipo de perguntas, mas estamos quase a celebrar mais um aniversário da Revolução e lembrei-me desta. Sim, lembrei-me desta revolução, onde tantos embarcamos cheios de esperança e de futuro. Não há revoluções à borla. E as revoluções não se fazem num dia. São coisa para a vida, como os filhos.
Há desertores? Pois há! Mas, também há quem se lembre todos os dias da sua responsabilidade.
Quanto é que custa um filho, Senhores Governantes, Gente Pseudorevolunicionária, Bloquistas, sei lá?
Eu tenho duas e não há equação que resolva com mérito tanto cálculo matemático e de amor. Talvez um dia.
Quando me despedi da minha mãe pela última vez, descobri a resposta a esta pergunta. É infinita esta conta. E há créditos, meus amigos, há créditos.
A Economia da vida é tão fodida como qualquer Revolução, nunca saberemos se fizemos o que era mais certo. Nunca saberemos.

N.B.





sexta-feira, 21 de abril de 2017

Placebo.



Há muitas coisas que ainda estão por descobrir. O efeito placebo, por exemplo, continua a dar que fazer a muita gente na área da ciência e não só.
 Parece que tudo tem que ter um nome, mesmo que não se lhe conheça o propósito. O placebo, para mim, entra naquela categoria das coisas que fazem sorrir, como o bolo de bolacha da minha mãe, o telefonema sem assunto da voz que quero ouvir, o olhar no espelho onde poisam outros olhos, a minha música preferida, os dias crescentes de Primavera. Um café num lugar onde não há esse culto, o barulho da casa onde cresci, um chocolate nos dias de neurose, um abraço apertadinho. 
São tantos os placebos. E tiram as dores? - perguntam.
Pois. Infelizmente, não todas. Quero acreditar que há tantos placebos, como coisas que fazem sorrir. É uma questão de coincidirem.

N.B.



quarta-feira, 12 de abril de 2017

O Elogio da Normalidade


Ando à procura de um bom sinal. Algo pelo qual não nos fazemos responsáveis.
 Os dias têm acontecimentos sucessivos que nem sempre aguentamos, que se estabelecem e  tornam a estabelecer-se a si próprios. Tudo é movimento, conversas que saltam de boca em boca.
Dou-me conta de que não há uma direcção certa, única. Aprendemos a apreciar o superlativo, o melhor dos melhores. As patinadoras russas, o melhor jogador do mundo, o filme mais premiado com o Óscar, o restaurante com a última Estrela Michelin.
Vendem-nos superlativos. Faltam-nos com o Elogio da Normalidade.
Coisas de todos nós, do dia a dia,  bem feitas, cumpridas por inteiro, sem pesares nem culpas. Coisas que não se roubam ao tempo. Feitas do que faz sentido. Se alguém me perguntar o que é isso, responderei que é o contrário do que fazemos a correr, do que deixamos para o fim.
A inteligência, às vezes,  é um infortúnio. E correr atrás de um superlativo qualquer, pode levar-nos a descobrir o vazio e a inutilidade atrás de si.
A normalidade é uma habilidade difícil de manter. Exige um tempo, exige escolhas difíceis. A companhia que não escolhemos, tantas vezes. E não é um erro grosseiro. É a consequência dos superlativos e do seu carácter perfeito e enganador. Ruínas e castelos no mesmo espaço.
 Ando à procura de um bom sinal. Talvez seja este. O Elogio da Normalidade. Quero partilhá-lo contigo.

N.B.




* imagem pinterest.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Hoje andam poetas à solta.



O que aconteceu, o que acontece, há-de servir para o que há-de acontecer. É uma  evidência.
 Descobri-a agora, que me dispus a reparar. Reparar é um acto demorado, como quem faz um trabalho de campo, colhe amostras, cataloga-as, examina-as e reflecte sobre isso. E quanto à memória, guardará o que valer a pena.
Hoje janta-se palavras e imagens. Hoje andam poetas à solta.
Partiu há dois anos, a mãe. Nós mantemos a nossa promessa, nenhum repete: "Sem a mãe, não sabemos o que fazer.".
Continuo a inventar histórias, numa urgência de escrever, de alargar mundos, o que é tão libertador.
Há problemas não identificáveis, esses são os piores.
Gostava de ter a opinião dela sobre isto, sobre o que escrevo. Parecem-me cestos de vindima. Como avaliaria o produto final? Um vinho a partilhar?
Volto ao início, o que não entendemos pode fazer muito mais por nós, do que aquilo que é entendível.
O amor mudou muito pouco ao longo dos séculos. Talvez, apenas na forma de se expressar. Sentir  que um e outro estão perto, é o melhor que nos pode acontecer. Foi assim, não foi?! Sentir que é aquele?!
Hoje andam poetas à solta. Hoje escrevo sobre o início. Sobre o fim sei tudo ao pormenor. O início é uma história sobre a qual tenho tanto para imaginar. O amor, mãe, é a melhor das nossas histórias.
Hoje janta-se palavras e imagens. Hoje andam poetas à solta.

N.B.




* Os meus pais, ainda namorados.


Mania de escrever

Mania de escrever
Aqui pratica-se a mania de escrever